Em 1926, Franca vivia um período de transformações urbanas, com o crescimento do comércio, novas iniciativas educacionais e mudanças nos meios de transporte e comunicação. Jornais e fotografias da época ajudam a reconstruir como era o cotidiano dos moradores há um século.
Uma cidade entre a tradição e a modernidade
Imagine caminhar pelas ruas centrais de Franca em 1926. As fachadas comerciais anunciavam produtos e serviços, a estação ferroviária mantinha a cidade conectada a outras localidades e os jornais impressos levavam notícias, opiniões e anúncios aos leitores. Nas ruas, o movimento revelava uma cidade em transformação, ainda marcada por costumes tradicionais, mas cada vez mais aberta às novidades do século XX.
Há cem anos, Franca era muito diferente da cidade que conhecemos hoje. A paisagem urbana era mais concentrada, os deslocamentos aconteciam em outra escala e boa parte da vida social girava em torno do comércio, das igrejas, das escolas, das praças e dos espaços de entretenimento.

A cidade já contava com iluminação elétrica, inaugurada em 1904, e havia iniciado o calçamento de ruas e praças com paralelepípedos em 1924. Eram mudanças que ajudavam a transformar o espaço urbano e a maneira como as pessoas circulavam por ele.
Mas como era, de fato, viver naquele tempo? Para encontrar respostas, é preciso observar os jornais, as fotografias e os documentos que sobreviveram ao passar das décadas.
O comércio movimentava o centro
O comércio tinha papel importante na rotina dos francanos. As ruas centrais concentravam estabelecimentos que abasteciam a população urbana e atendiam também moradores da zona rural e das propriedades agrícolas da região.
Os jornais eram uma vitrine dessa atividade econômica. Em suas páginas apareciam anúncios de lojas, produtos, serviços e novidades que os comerciantes desejavam apresentar ao público.
Um dos registros mais interessantes está nas edições do jornal O Comércio da Franca. Em 1926, o periódico começou a apresentar anúncios publicitários em formato mais elaborado, incluindo publicidade de automóveis. Entre os anunciantes estava a empresa Mello e Junqueira, que divulgava veículos da marca Oakland.
Esse detalhe ajuda a compreender as mudanças daquele período: o automóvel já despertava interesse comercial, embora estivesse longe de fazer parte da realidade de todas as famílias.
Ao mesmo tempo, a vida econômica de Franca continuava ligada à agricultura, especialmente à cultura do café, e às atividades comerciais que abasteciam a população da cidade e do campo. O comércio não era apenas um lugar de compras; também constituía um espaço de circulação de notícias, encontros e relações sociais.
Como os francanos se deslocavam?
A ferrovia era uma das principais ligações de Franca com o mundo exterior. A estação da Companhia Mogiana, inaugurada no século XIX, continuava desempenhando um papel importante no transporte de passageiros e mercadorias.
O trem permitia viagens para outras localidades e facilitava o escoamento da produção regional. Ao redor da estação, o movimento ferroviário também ajudava a sustentar atividades comerciais e a dinâmica do bairro que cresceu em seu entorno.

Dentro da cidade, os deslocamentos eram muito diferentes dos atuais. Caminhar fazia parte da rotina, e veículos de tração animal ainda pertenciam à paisagem urbana. Os automóveis começavam a aparecer com maior visibilidade, como demonstram os anúncios publicados nos jornais, mas não se deve imaginar uma cidade já dominada pelo trânsito motorizado.
A própria infraestrutura urbana revela essa transição. O calçamento de algumas ruas e praças, iniciado em 1924, era um sinal de modernização, mas não significa que toda a cidade estivesse pavimentada ou contasse com as mesmas condições de circulação.
Para quem vivia naquela época, as distâncias, os horários e as possibilidades de deslocamento impunham uma organização cotidiana bastante diferente da atual.
Estudar em Franca há um século
A educação também passava por mudanças importantes. Franca já possuía instituições de ensino tradicionais, entre elas o Grupo Escolar Coronel Francisco Martins, instalado em 1905, e o Colégio Champagnat, inaugurado em 1917.

Foto: Grupo Escolar Coronel Francisco Martins

Foto: Colégio Champagnat
Em 1924, a criação da Escola Profissional Júlio Cardoso representou outro passo na formação educacional da cidade, com uma proposta de ensino voltada à preparação profissional.
A expansão do ensino, contudo, não significava que todas as crianças tivessem as mesmas oportunidades. O acesso à escola e a permanência nos estudos eram influenciados pelas condições econômicas das famílias e pela oferta de vagas.
A experiência escolar também era diferente da atual. As rotinas, os materiais didáticos, as regras disciplinares e as possibilidades de continuar os estudos refletiam os valores e as limitações daquele período.
A história da educação francana mostra, assim, não apenas a criação de instituições, mas também os esforços e os desafios para ampliar o acesso ao ensino em uma cidade que crescia e se transformava.
O que as famílias faziam nas horas livres?
Sem televisão, internet ou a variedade de opções de entretenimento de hoje, os momentos de lazer eram organizados em torno de outras atividades.
As praças, as igrejas, os clubes, as festas e os espetáculos constituíam importantes espaços de convivência. O cinema, que havia chegado à cidade no início do século XX, também já fazia parte das alternativas de diversão.
Em 1926, o Cine Odeon aparece nas páginas do Comércio da Franca. Uma reportagem retrospectiva do Sampi, baseada na leitura do jornal, registra anúncios de filmes exibidos naquele ano, incluindo O Cavalo de Ferro, produção relacionada à construção das ferrovias nos Estados Unidos.

Foto: Antigo Cine Odeon
A presença desses anúncios mostra como o cinema já integrava a programação cultural local e como os jornais ajudavam a divulgar os espetáculos.
A vida social, porém, não era igual para todos. As oportunidades de lazer dependiam da renda, do local de moradia, dos costumes familiares e das convenções sociais da época. Por isso, reconstruir o cotidiano exige considerar experiências distintas, e não apenas as atividades frequentadas pelos grupos mais favorecidos.
As notícias que chegavam pelo jornal
Em 1926, os jornais impressos eram uma fonte importante de informação para quem tinha acesso à leitura e à compra dos periódicos.
O Comércio da Franca, fundado em 1915, registrava acontecimentos políticos, questões urbanas, notícias policiais e assuntos ligados à economia local. Suas páginas permitem observar preocupações que, em alguns aspectos, continuam familiares: problemas nas ruas, higiene urbana, segurança, comércio e administração pública.
Em uma cidade em expansão, as notícias também revelavam as dificuldades de acompanhar o crescimento urbano. Reclamações sobre condições sanitárias e problemas em áreas centrais mostram que a modernização não acontecia sem conflitos.
O jornal também funcionava como espaço de publicidade. Os anúncios ofereciam pistas sobre os produtos disponíveis, os serviços procurados e as novidades que começavam a despertar interesse.
Ler uma edição antiga é, portanto, uma forma de observar a cidade por dentro. Em vez de encontrar apenas datas e nomes de autoridades, o pesquisador descobre pequenas informações capazes de reconstruir hábitos, preocupações e expectativas dos moradores.
É importante, entretanto, lembrar que o jornal registrava a realidade a partir de uma linha editorial e de interesses próprios. Para compreender um acontecimento, o ideal é comparar suas informações com outros documentos e fotografias.
Uma cidade em transformação
O ano de 1926 também se destaca na história econômica de Franca pela fundação da Calçados Samello, associada a Miguel Sábio de Mello. A trajetória da empresa integra a história mais ampla da atividade calçadista que, ao longo das décadas seguintes, ganharia enorme importância para a identidade econômica da cidade.
Esse marco não significa que Franca já fosse, naquele momento, a capital nacional do calçado. A consolidação do setor aconteceu gradualmente, com a participação de diferentes empreendedores, trabalhadores e empresas.
A cidade dos anos 1920 reunia, portanto, diferentes tempos históricos. A agricultura ainda tinha peso econômico, o comércio mantinha sua relevância e novas iniciativas industriais começavam a participar de um processo de transformação que se aprofundaria nas décadas seguintes.
A modernização aparecia nas ruas calçadas, nos anúncios de automóveis, nas instituições de ensino e nas novas atividades econômicas. Ao mesmo tempo, muitos hábitos continuavam ligados a uma rotina mais próxima da vida comunitária e dos espaços tradicionais de convivência.
O que restou daquela Franca?
Cem anos depois, fotografias e jornais permitem reencontrar uma cidade que já não existe da mesma forma, mas que deixou marcas na paisagem e na memória coletiva.
A Rua Major Claudiano, a região central, as praças e a antiga estação ferroviária ajudam a estabelecer conexões entre o passado e o presente. Uma fotografia de 1925, por exemplo, permite observar a paisagem urbana daquele período, enquanto as edições do Comércio da Franca revelam acontecimentos e hábitos registrados quase diariamente.

Parte importante desse material está preservada no Arquivo Histórico Municipal Capitão Hipólito Antônio Pinheiro, criado em 1989. Seu acervo reúne jornais francanos de diferentes épocas, fotografias, mapas, plantas de imóveis e documentos administrativos.
É nesse tipo de material que se encontram as pistas para responder a perguntas aparentemente simples: quanto custava um produto? Quais lojas funcionavam no centro? Que filmes estavam em cartaz? Quais problemas preocupavam os moradores? Como as crianças estudavam e quais novidades despertavam curiosidade?
Reconstruir Franca em 1926 é mais do que olhar para prédios antigos. É descobrir como as pessoas trabalhavam, se informavam, estudavam, se divertiam e enfrentavam os desafios de seu tempo.
A cidade mudou profundamente em um século. Mas cada fotografia, anúncio e notícia preservados ajuda a compreender que Franca não se tornou o que é hoje de uma hora para outra. Sua história foi construída no cotidiano de milhares de pessoas, muitas delas anônimas, que viveram, trabalharam e sonharam nessas mesmas ruas.



