Cinco dias antes do 7 de setembro de 1822, Dona Leopoldina presidiu uma reunião do Conselho de Estado e apoiou a decisão pelo rompimento com Portugal. A história revela o papel fundamental da primeira imperatriz do Brasil no processo de Independência.
Quando se fala na Independência do Brasil, a imagem que imediatamente vem à cabeça é a de Dom Pedro às margens do riacho Ipiranga, em São Paulo, no dia 7 de setembro de 1822. Mas uma decisão fundamental para aquele momento havia sido tomada cinco dias antes, no Rio de Janeiro, e teve uma mulher no centro dos acontecimentos: Dona Leopoldina.
Esposa de Dom Pedro e então princesa regente, Leopoldina presidiu, em 2 de setembro de 1822, uma reunião extraordinária do Conselho de Estado. Naquele momento, Dom Pedro estava em viagem por São Paulo, enquanto a situação política entre Brasil e Portugal se tornava cada vez mais tensa.

O conflito vinha das Cortes portuguesas, reunidas em Lisboa, que pressionavam Dom Pedro para que retornasse a Portugal e anulavam medidas tomadas no Brasil. As decisões de Lisboa eram vistas por parte dos grupos políticos brasileiros como uma tentativa de reduzir novamente a autonomia que o Brasil havia conquistado desde a chegada da família real portuguesa, em 1808, e a elevação do território à condição de Reino Unido, em 1815.
Na ausência de Dom Pedro, Leopoldina exercia a regência. Ao receber novas notícias e determinações vindas de Portugal, ela se reuniu com seus ministros e conselheiros. José Bonifácio de Andrada e Silva, uma das principais lideranças políticas daquele momento, também participou das articulações.
A reunião de 2 de setembro foi decisiva. O Conselho de Estado orientou Dom Pedro a não aceitar as determinações das Cortes e a avançar para a separação política. Leopoldina apoiou a decisão e enviou ao marido as notícias e documentos que relatavam a gravidade da situação e defendiam o rompimento com Portugal. A Biblioteca Nacional registra que a princesa convocou e presidiu a reunião extraordinária e que as mensagens foram entregues a Dom Pedro durante sua viagem.
Cinco dias depois, em 7 de setembro, Dom Pedro recebeu essas mensagens às margens do Ipiranga. Ali ocorreu o episódio que entrou para a memória nacional como o “Grito do Ipiranga”, marco simbólico da Independência do Brasil. A própria linha do tempo oficial do governo federal registra que Leopoldina organizou a sessão de 2 de setembro e que, no dia 7, Dom Pedro recebeu as mensagens enviadas por ela e por José Bonifácio antes de proclamar a separação.

Isso não significa que a Independência tenha acontecido de maneira instantânea ou que tudo tenha sido decidido em um único momento. O rompimento foi resultado de um processo político que vinha se desenvolvendo havia meses. Depois do 7 de setembro, ainda houve conflitos militares em diferentes regiões do território brasileiro, especialmente na Bahia, no Maranhão, no Piauí, no Pará e na Cisplatina. A consolidação da Independência só ocorreria posteriormente, e Portugal reconheceria oficialmente a separação em 1825, por meio do Tratado de Amizade e Aliança.
Uma imperatriz muito além dos bastidores
A participação de Leopoldina na Independência ajuda a compreender uma personagem que muitas vezes aparece de maneira secundária nos livros de história.
Nascida em Viena, na Áustria, em 1797, Maria Leopoldina Josefa Carolina era filha do imperador Francisco I da Áustria. Tinha formação cultural ampla e demonstrava interesse por artes, ciências naturais e botânica. Casou-se por procuração com Dom Pedro em 1817 e chegou ao Rio de Janeiro naquele mesmo ano.
No Brasil, além de exercer funções políticas em momentos decisivos, manteve interesse pelas ciências e pelo conhecimento. Sua posição na família imperial também fez dela uma importante articuladora em um período de profundas transformações políticas.
Após a Independência, Dom Pedro foi aclamado imperador do Brasil em 12 de outubro de 1822 e coroado em 1º de dezembro. Leopoldina tornou-se, assim, a primeira imperatriz do Brasil.
Sua vida pessoal, porém, foi marcada por dificuldades. O casamento com Dom Pedro foi conturbado, especialmente em razão das relações extraconjugais do imperador. Apesar dos conflitos, Leopoldina continuou desempenhando seu papel político e dedicando-se à família.
Entre seus filhos estava Pedro de Alcântara, que se tornaria Dom Pedro II, o segundo imperador do Brasil. O futuro imperador recebeu uma formação ampla, com estudos de literatura, línguas, geografia, ciências naturais, música e outras áreas do conhecimento.
Leopoldina morreu no Rio de Janeiro em 11 de dezembro de 1826, aos 29 anos.
Sua trajetória ajuda a olhar para a Independência por outro ângulo. O 7 de setembro continua sendo o grande símbolo da separação entre Brasil e Portugal, mas cinco dias antes, no Rio de Janeiro, Leopoldina já havia participado de uma decisão política fundamental para que aquele momento acontecesse.
Uma princesa austríaca que chegou ao Brasil para se casar com o herdeiro do trono português e que acabou se tornando a primeira imperatriz do Brasil e uma das personagens fundamentais do processo de Independência.



