Antes dos shoppings e das plataformas de streaming, ir ao cinema era um dos programas mais esperados pelos francanos. Das primeiras exibições no início do século XX aos tradicionais cinemas de rua, essas salas fizeram parte da história cultural e social de Franca.
Quando o cinema chegou a Franca
Muito antes de escolher um filme pelo celular ou assistir a uma produção em casa, os francanos já se reuniam para acompanhar as novidades da sétima arte. No começo do século XX, porém, assistir a uma sessão de cinema ainda era uma experiência diferente daquela que conhecemos hoje.
As primeiras exibições de filmes em Franca aconteceram em um período de transformações. A cidade recebia novidades como a iluminação elétrica, a expansão dos serviços urbanos e o crescimento das atividades comerciais. Nesse cenário, os espetáculos e as projeções cinematográficas começaram a despertar a curiosidade da população.
Registros históricos apontam que o Teatro Santa Clara recebeu apresentações com cinematógrafo em 1905. Na época, companhias itinerantes levavam seus equipamentos às cidades do interior, proporcionando ao público o contato com imagens em movimento, uma novidade que ainda despertava surpresa e fascínio.

O cinema, entretanto, não conquistou imediatamente todos os setores da sociedade. Segundo uma retrospectiva histórica publicada pelo portal Sampi, frequentar uma sala de exibição chegou a ser visto com ressalvas por algumas famílias, antes que o hábito se popularizasse.
Bijou Theatre e as primeiras salas
Entre os marcos iniciais da história do cinema francano está o Bijou Theatre, associado ao ano de 1910 e a Alexandre Dau. Registros cronológicos sobre a cidade indicam que a sala foi destruída por um incêndio em 8 de julho de 1912.
Em 1911, Franca também teve o Cinema e Teatro Santa Maria, sinal de que o interesse por esse tipo de entretenimento começava a ganhar espaço.

Essas primeiras experiências ajudam a compreender como a cidade passou a incorporar uma nova forma de lazer. Mais do que assistir a uma história projetada em uma tela, o público vivenciava uma novidade tecnológica e cultural que, pouco a pouco, se transformaria em parte da rotina urbana.
O cinema conquista o público
A partir de 1918, o cinema avançou em Franca, com o crescimento do número de frequentadores e a abertura de novas salas. Na região da Estação, por exemplo, a inauguração do Cine Royal ampliou as opções de diversão para quem vivia naquela parte da cidade.
A localização dos cinemas também ajuda a contar a história de Franca. Em uma época em que os deslocamentos eram diferentes dos atuais e as opções de entretenimento eram mais limitadas, ter uma sala de exibição por perto significava ampliar as possibilidades de lazer para os moradores.
Com o passar dos anos, ir ao cinema deixou de ser apenas uma novidade tecnológica e se consolidou como um programa social. As sessões reuniam casais, grupos de amigos e famílias, enquanto os filmes estrangeiros, especialmente as produções de Hollywood, levavam às telas histórias, artistas e costumes que despertavam a imaginação do público.
As salas que marcaram gerações
Décadas depois, Franca contava com cinemas de rua que ficaram na lembrança de quem frequentou suas sessões. Em 1975, segundo relato publicado pelo advogado e professor Setímio Salerno Miguel, a cidade tinha quatro salas:

Foto: Cine Avenida, na Avenida Presidente Vargas;

Foto: Cine Santo Antônio, na região da Estação;

Foto: Cine São Luiz, em frente ao antigo Hotel Francano;

Foto: Cine Odeon, na Rua Campos Salles.
As salas eram ligadas à família Bittar, conforme o relato. Posteriormente, o Cine Bristol também passou a integrar as opções de exibição na cidade, na Rua Ouvidor Freire.
Cada cinema tinha seu endereço, sua programação e seu público. Para muitos moradores, esses nomes não representam apenas edifícios: remetem a lembranças de infância, encontros, primeiros namoros, sessões de fim de semana e filmes que permaneceram na memória muito depois de os créditos finais aparecerem na tela.
A história dessas salas também se conecta à transformação dos hábitos urbanos. Durante boa parte do século XX, o cinema de rua ocupou um lugar importante entre as opções de lazer, ao lado dos passeios pelas praças, dos encontros nos cafés e das atividades nos clubes.
Cine Odeon: um símbolo de uma época
Entre os nomes que marcaram a memória cinematográfica de Franca está o Cine Odeon. Uma reportagem publicada em janeiro de 1999 pelo Diário do Grande ABC informa que o cinema havia sido fundado em 1955 e ficara desativado por cerca de nove anos antes de uma experiência de reabertura naquele período.
A iniciativa levou novamente o público à sala, com sessões especiais e ingressos a preço simbólico. A reportagem também registra o entusiasmo de Eurípedes dos Reis Victor, que trabalhava no cinema desde 1967 e retornava à função com a reativação.
O episódio ilustra a força afetiva desses espaços e o esforço para preservar o hábito de frequentar as salas tradicionais, mesmo quando o modelo dos cinemas de rua enfrentava dificuldades.
Por que os cinemas de rua desapareceram?
A transformação não aconteceu apenas em Franca. Em várias cidades brasileiras, os cinemas tradicionais perderam público diante da expansão da televisão, das mudanças nos hábitos de lazer e, mais tarde, da popularização de novas tecnologias.
As salas instaladas em ruas centrais também enfrentaram dificuldades para competir com novos modelos de exibição, concentrados em centros comerciais e shopping centers.
Em Franca, os antigos cinemas deixaram de funcionar como antes, e seus espaços passaram a ter outros usos. O desaparecimento das salas tradicionais representou mais do que uma mudança no entretenimento: alterou também a paisagem urbana e a maneira como as pessoas se encontravam para compartilhar uma experiência cultural.
Uma história que continua viva na memória
Hoje, assistir a um filme é algo que pode acontecer a qualquer hora e em diferentes telas. Mas, para muitas gerações, o cinema era um acontecimento que exigia sair de casa, encontrar outras pessoas e compartilhar a emoção de uma história em uma sala escura.
Os antigos cinemas de Franca fizeram parte dessa experiência coletiva. Suas fachadas, seus nomes e as lembranças de quem frequentou suas sessões ajudam a reconstruir um período em que a ida ao cinema era um dos programas mais aguardados da semana.
Resgatar essa história é também preservar a memória de uma cidade que mudou, cresceu e encontrou novas formas de entretenimento, sem apagar as experiências que marcaram seus moradores.



