Projeções para a safra 2026/27 indicam redução dos estoques globais de grãos. Possível El Niño também preocupa o mercado, mas a oferta elevada ainda limita a recuperação dos preços.
Depois de um período de preços pressionados e margens apertadas para os produtores rurais, a soja e o milho podem entrar em uma fase mais favorável no mercado internacional. Projeções para a safra 2026/27 apontam redução dos estoques mundiais de importantes commodities agrícolas, enquanto o risco de mudanças climáticas aumenta a preocupação com a produção.
A avaliação, apresentada em análise publicada pela revista Exame nesta quinta-feira (15), com base em relatório do BTG Pactual, indica que o mercado pode caminhar para um cenário de oferta mais ajustada em relação ao consumo. Esse movimento tende a favorecer os preços, especialmente se houver perdas de produtividade nas principais regiões produtoras.
Apesar da perspectiva positiva, uma recuperação consistente ainda depende de fatores como o comportamento da demanda, o tamanho das próximas safras e as condições climáticas.
Estoques mundiais entram no radar
Um dos principais fatores que podem favorecer a valorização dos grãos é a expectativa de redução dos estoques globais.
Segundo as projeções citadas pela Exame, os estoques mundiais de milho na safra 2026/27 devem ficar em 280,4 milhões de toneladas, uma queda de 8,7% em relação à temporada anterior.
Para a soja, a redução projetada é mais moderada, de 0,5%. Mesmo assim, a diminuição dos estoques pode contribuir para um mercado mais sensível a problemas de produção e a mudanças na demanda.
Quando a disponibilidade de uma commodity diminui em relação ao consumo, o mercado tende a reagir com maior intensidade a qualquer notícia que indique risco de falta do produto.
El Niño pode pressionar a produção
Outro fator observado pelos analistas é a possibilidade de formação de um El Niño mais intenso.
O fenômeno altera os padrões de temperatura e chuva e pode provocar condições desfavoráveis para a agricultura em determinadas regiões produtoras. Dependendo da intensidade e da distribuição dos efeitos climáticos, a produção de soja e milho pode ser prejudicada.
Caso ocorram perdas relevantes nas lavouras, a oferta global poderá ficar ainda mais restrita, aumentando a possibilidade de valorização das commodities.
No entanto, os efeitos do fenômeno não são iguais em todas as regiões. Por isso, o impacto sobre os preços dependerá das condições efetivamente observadas ao longo do desenvolvimento das lavouras.
Por que os preços ficaram pressionados?
Nos últimos anos, a combinação de maior oferta de grãos e custos elevados de produção reduziu a rentabilidade de muitos produtores.
Entre os fatores que pesam sobre o setor estão os gastos com fertilizantes, o custo do financiamento e as oscilações cambiais. No Brasil, a dependência de insumos importados também deixa os produtores expostos às variações do dólar.
Esse cenário levou agricultores a rever investimentos e decisões de plantio, movimento que pode influenciar a oferta das próximas safras.
Se a produção mundial crescer menos e os estoques diminuírem, o equilíbrio entre oferta e demanda poderá mudar, abrindo espaço para preços mais favoráveis.
Soja e milho podem subir no Brasil?
A eventual valorização internacional pode repercutir no mercado brasileiro, mas os preços internos também dependem de fatores próprios, como o câmbio, a demanda das indústrias, as exportações, os custos de transporte e a disponibilidade regional.
Na soja, a demanda chinesa e os prêmios de exportação são elementos importantes para a formação dos preços no país. Ao mesmo tempo, a expectativa de uma safra norte-americana elevada pode pressionar as cotações internacionais.
No milho, a oferta disponível, o ritmo das exportações e o interesse dos compradores internos continuam sendo determinantes. A maior disponibilidade do cereal pode limitar a recuperação mesmo diante de perspectivas mais favoráveis para o mercado global no médio prazo.
Portanto, uma possível mudança no ciclo das commodities não significa que os preços subirão de forma contínua ou na mesma intensidade para os dois grãos.
O que o produtor rural deve acompanhar?
Para os próximos meses, alguns indicadores serão importantes para avaliar se a possível virada de preços vai se confirmar:
Clima: condições de chuva e temperatura nas principais regiões produtoras.
Estoques globais: revisões das estimativas de oferta e consumo.
Demanda internacional: compras dos principais importadores, especialmente da China no mercado de soja.
Exportações brasileiras: ritmo dos embarques e competitividade dos grãos nacionais.
Câmbio: variações do dólar, que influenciam os preços internos e o custo dos insumos importados.
A combinação desses fatores ajudará a definir o comportamento das cotações e as oportunidades de comercialização.
Perspectiva é positiva, mas exige cautela
A redução projetada dos estoques mundiais e o risco climático aumentam as chances de um cenário mais favorável para as commodities agrícolas na safra 2026/27. Ainda assim, a confirmação dessa tendência dependerá da evolução da produção, da demanda e das condições de mercado.
Para o produtor rural, acompanhar as atualizações das estimativas e avaliar os custos de produção continua sendo fundamental para tomar decisões de venda e planejamento da próxima safra.
Fonte: Exame, com base em relatório do BTG Pactual; CNN Brasil, com informações sobre o mercado de soja e milho.



