A Anselmada foi um levante político e armado ocorrido em Franca, em 1838, durante o Brasil Imperial. Liderada pelo capitão Anselmo Ferreira de Barcellos, a revolta envolveu disputas pelo poder local, violência e um processo judicial que permanece como importante registro da história francana.
Em 1838, quando ainda era conhecida como Vila Franca do Imperador, Franca foi palco de um dos episódios mais conturbados de sua história. Uma disputa pelo poder entre grupos influentes da sociedade local deu origem a uma revolta armada que ficou conhecida como Anselmada, nome associado ao capitão Anselmo Ferreira de Barcellos, apontado como líder do movimento. O episódio provocou a fuga de autoridades, invasões e mortes, deixando marcas na história política e judicial da então vila.
Para compreender o que aconteceu, é preciso voltar ao contexto do Brasil Imperial. O país vivia o Período Regencial, entre 1831 e 1840, uma fase de instabilidade política e de conflitos em diferentes regiões. Em Franca, as disputas nacionais se somavam às rivalidades locais, especialmente entre antigos proprietários rurais, que exerciam grande influência sobre a administração e a Justiça, e um grupo de novos dirigentes ligado ao comércio urbano.
A disputa pelo poder em Franca
O conflito começou a ganhar força depois das eleições municipais de 7 de setembro de 1836. A nova composição política da vila favoreceu um grupo de negociantes que passou a ocupar posições importantes na administração local. Entre eles estava Manoel Rodrigues Pombo, juiz de paz que se tornou uma das figuras centrais da crise.
Anselmo Ferreira de Barcellos era um influente proprietário de terras e capitão da Guarda Nacional. Com a mudança na distribuição do poder, integrantes da antiga elite rural perderam espaço em funções administrativas e judiciais. Anselmo contestou o resultado eleitoral, alegando irregularidades, e passou a confrontar as novas autoridades.

As divergências se intensificaram nos anos seguintes. O que começou como uma disputa política transformou-se em um movimento armado, envolvendo aliados do capitão e autoridades que tentavam manter a ordem na Vila Franca do Imperador.
A revolta e o assassinato de Manoel Rodrigues Pombo
Em novembro de 1838, o conflito chegou ao seu momento mais grave. A insurreição envolveu invasões e a tomada de posições de poder, obrigando autoridades a deixar a vila. Em 9 de novembro, Anselmo chegou a se apresentar como uma espécie de protetor e defensor do povo, assumindo protagonismo na administração local durante o período de domínio dos revoltosos.
Um dos episódios mais graves foi o desaparecimento e assassinato de Manoel Rodrigues Pombo. De acordo com o registro histórico divulgado pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, Pombo havia atuado na persecução penal dos envolvidos na rebelião e expedido uma ordem de prisão contra Anselmo.
Em 6 de novembro de 1838, Pombo teria ido até a região da Borda da Mata para tentar negociar com o capitão. Segundo o relato histórico reproduzido pelo Tribunal, ele foi levado à força e não voltou a ser visto com vida. Três dias depois, seu corpo foi encontrado nas proximidades de um lugar conhecido como Vendinha.
O assassinato tornou-se um dos acontecimentos mais emblemáticos da Anselmada e passou a integrar os registros judiciais do período. O processo criminal relativo ao caso é considerado um dos documentos mais importantes da história de Franca, por registrar detalhes de um conflito que ultrapassou as disputas políticas e atingiu diretamente a população local.
O fim da revolta e o julgamento dos envolvidos
A Anselmada não se encerrou com a tomada do poder pelos revoltosos. O movimento acabou sendo sufocado, e o episódio passou a ser investigado pelas autoridades judiciais. Em novembro de 1839, Anselmo e alguns de seus aliados foram julgados em Batatais, município vizinho. A escolha do local foi relacionada à preocupação com a imparcialidade do julgamento, diante das rivalidades existentes em Franca.
Apesar da gravidade das acusações, os réus foram absolvidos das acusações de sedição e homicídio. O resultado do julgamento é parte importante da história do episódio e mostra como as disputas políticas e as relações de poder também influenciavam a Justiça naquele período.
A documentação preservada permite conhecer parte dos acontecimentos, embora a interpretação completa do movimento dependa da análise dos processos, das atas da Câmara e de outros registros da época.

Uma consequência importante para a história da cidade
Depois da revolta, Franca passou por mudanças na organização de sua estrutura judiciária. Pela Lei Provincial nº 7, de 14 de março de 1839, a vila tornou-se sede de comarca e passou a contar com um juiz de Direito. A medida representou uma mudança importante na administração da Justiça local.
A criação da comarca ocorreu após a sedição, mas é importante não simplificar essa relação: a mudança institucional integra o contexto posterior ao conflito e não deve ser interpretada, sem outras evidências, como uma consequência exclusiva da Anselmada.
Mais do que uma revolta liderada por um personagem controverso, a Anselmada revela uma fase em que o poder político, a propriedade da terra, os interesses econômicos e o controle da Justiça estavam profundamente relacionados. O episódio mostra que a história de Franca também foi construída por conflitos e disputas que ajudam a compreender a formação de suas instituições.
Hoje, os registros sobre a Anselmada constituem uma fonte importante para pesquisadores e para todos que desejam conhecer as origens da cidade. Ao recuperar essa história, é possível compreender melhor não apenas o que aconteceu em 1838, mas também os desafios enfrentados por Franca na construção de sua vida política e institucional.



