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Como Franca se tornou a Capital do Calçado

Como Franca se tornou a Capital do Calçado

11 de outubro de 2026•6 min de leitura

A história da indústria calçadista de Franca começou com o trabalho artesanal do couro e se transformou, ao longo do século XX, em um dos principais polos brasileiros de produção de calçados masculinos.

Quem vive em Franca conhece a relação da cidade com os sapatos. Durante décadas, o barulho das máquinas, o trabalho dos sapateiros e o movimento das fábricas fizeram parte da rotina de milhares de famílias. Mas como uma cidade do interior paulista se tornou uma referência nacional na fabricação de calçados de couro?

Essa história não começou com as grandes indústrias. Suas raízes estão no século XIX, quando a produção artesanal de artigos de couro já fazia parte da economia local. A transformação dessa atividade em um importante polo industrial aconteceu gradualmente, impulsionada pela disponibilidade de matéria-prima, pelo crescimento do comércio, pela chegada da ferrovia e pelo conhecimento desenvolvido por gerações de trabalhadores.

O couro e os primeiros sapateiros

No início de sua formação, Franca estava inserida em uma região marcada pela criação de animais, pela circulação de mercadorias e pelas atividades ligadas à vida rural. A pecuária favorecia a oferta de couro, matéria-prima utilizada na fabricação de calçados, selas, arreios e diversos outros artigos.

Registros históricos apontam que a produção artesanal de calçados e objetos de couro já existia na região em meados do século XIX. Antes das fábricas, eram os artesãos que dominavam as técnicas de corte, costura e montagem, produzindo peças em pequenas oficinas. O trabalho dependia principalmente da habilidade manual e da experiência de cada profissional.

A atividade coureira também abriu caminho para o desenvolvimento dos curtumes, estabelecimentos responsáveis pelo tratamento das peles para transformá-las em couro utilizável. Com isso, começou a se formar uma cadeia produtiva que reunia diferentes ofícios e negócios relacionados ao mesmo material.

Foto: Antigo Curtume Della Torre, atual Savegnago da Av. Ismael Alonso y Alonso.

A chegada da indústria

Durante as primeiras décadas do século XX, o setor de couro tinha grande importância na economia industrial francana. Os curtumes se desenvolveram, enquanto a fabricação de calçados ainda era realizada, em boa parte, por pequenas unidades produtivas, com forte presença do trabalho manual.

Aos poucos, esse cenário começou a mudar. A introdução de máquinas permitiu aumentar a capacidade de produção e melhorar determinadas etapas da fabricação. A Calçados Jaguar, por exemplo, utilizava equipamentos mecanizados já na década de 1920, contribuindo para as primeiras experiências de modernização do setor.

A expansão da cafeicultura e a integração comercial proporcionada pela ferrovia também favoreceram a economia local. Esses fatores ajudaram a movimentar recursos, ampliar mercados e criar condições para o crescimento das atividades industriais ligadas ao couro.

A indústria de calçados, porém, não se desenvolveu de uma hora para outra. Foi resultado de sucessivas mudanças na organização das empresas, na tecnologia empregada e nas relações entre fabricantes, fornecedores e trabalhadores.

O crescimento das fábricas e a transformação da cidade

A partir da década de 1940, a fabricação de calçados ganhou ainda mais importância. Em meados do século XX, o setor já havia superado a produção de couro como principal atividade industrial do município. Durante os anos 1950 e 1960, antigas empresas se consolidaram, novas fábricas surgiram e a produção passou por um processo de expansão e modernização.

Esse crescimento também transformou a vida da população. A indústria atraiu trabalhadores de outras localidades, especialmente de Minas Gerais, e contribuiu para o crescimento urbano. Muitas famílias passaram a depender direta ou indiretamente do setor, seja trabalhando nas fábricas, seja fornecendo materiais, equipamentos e serviços.

A cadeia produtiva foi se tornando cada vez mais diversificada. Além dos fabricantes de calçados e dos curtumes, desenvolveram-se atividades relacionadas à produção de solados, adesivos, formas, embalagens, máquinas e outros componentes necessários à fabricação dos sapatos.

Assim, Franca não se destacou apenas por possuir fábricas, mas também por reunir diferentes atividades especializadas em torno da indústria calçadista.

O mocassim e a projeção nacional da Samello

Entre os acontecimentos que marcaram a história do setor está a introdução do mocassim na produção francana. A trajetória da Samello teve papel importante nesse processo.

Em 1947, Miguel Sábio de Mello e seu filho Wilson Sábio de Mello viajaram aos Estados Unidos para conhecer instalações e tecnologias relacionadas à fabricação de calçados. Posteriormente, integrantes da família também buscaram formação técnica no exterior. Esse contato contribuiu para a introdução e o desenvolvimento da produção de mocassins em Franca.

O modelo ganhou espaço por características como conforto, flexibilidade e praticidade. A combinação entre inovação no produto, modernização da fabricação e estratégias de divulgação ajudou a projetar a Samello e fortaleceu a imagem da cidade como centro produtor de calçados masculinos de couro.

A história da indústria francana, entretanto, não se resume a uma única empresa. Diferentes fabricantes, empresários, técnicos e trabalhadores contribuíram para consolidar a reputação construída pelo setor ao longo das décadas.

As exportações e o reconhecimento internacional

Na década de 1970, a indústria calçadista de Franca viveu um período importante de expansão para o mercado externo. A modernização das fábricas e as políticas nacionais de incentivo às exportações de produtos manufaturados ajudaram a ampliar a presença dos calçados brasileiros no exterior.

Um marco dessa trajetória foi a primeira remessa de 17 mil pares de calçados da Samello para os Estados Unidos, em maio de 1970, segundo o histórico divulgado pelo Sindifranca. O envio simbolizou uma nova etapa para a empresa e para a indústria local, que passou a buscar oportunidades em mercados internacionais.

Nos anos seguintes, fabricantes francanos ampliaram suas relações comerciais com diferentes países. A produção ganhou escala, as técnicas de fabricação evoluíram e as empresas passaram a lidar com exigências cada vez maiores de qualidade, produtividade e competitividade.

Esse movimento ajudou a consolidar Franca como um dos principais centros brasileiros de produção de calçados masculinos de couro, reconhecimento que deu origem à denominação pela qual a cidade ficou conhecida: Capital do Calçado.

Uma história construída por milhares de trabalhadores

Por trás das marcas e das grandes fábricas existe uma história que envolve milhares de pessoas. Sapateiros, cortadores, pespontadores, montadores, modelistas, profissionais de acabamento e trabalhadores de diversas outras áreas participaram da construção desse patrimônio econômico.

A indústria também contou com a atuação das mulheres, presentes em diferentes etapas da produção e na organização da vida familiar em torno do trabalho fabril. Pesquisas acadêmicas sobre o setor mostram que a industrialização transformou as relações de trabalho, os bairros e a própria dinâmica social de Franca.

Ao longo do tempo, o setor enfrentou mudanças econômicas, concorrência internacional, transformações tecnológicas e períodos de crise. Algumas empresas tradicionais encerraram suas atividades, enquanto outras se adaptaram, buscaram novos mercados ou passaram a atuar em segmentos diferentes.

Mesmo diante dessas transformações, o conhecimento acumulado na fabricação de calçados continua sendo uma característica importante da cidade. A experiência dos profissionais, a presença de fornecedores especializados e a tradição industrial permanecem como parte da identidade econômica francana.

Por que Franca é conhecida como Capital do Calçado?

O título não surgiu de um único acontecimento ou de uma decisão isolada. Ele representa o resultado de um processo histórico que começou com o trabalho artesanal do couro, avançou com a mecanização das oficinas, ganhou força com a expansão das fábricas e alcançou projeção nacional e internacional com as exportações.

A cidade construiu uma cadeia produtiva especializada, capaz de reunir fabricantes, fornecedores, prestadores de serviços e profissionais com conhecimentos específicos sobre a produção de calçados. Essa concentração de atividades ajudou a diferenciar Franca de outros centros industriais brasileiros.

Conhecer essa história é também reconhecer a contribuição de gerações de trabalhadores e empreendedores que ajudaram a transformar uma atividade artesanal em uma das marcas mais conhecidas da cidade. A Capital do Calçado não foi construída apenas por máquinas e empresas, mas pelas pessoas que aprenderam, ensinaram e aperfeiçoaram o ofício ao longo do tempo.