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Personalidades

Correia Neves

Correia Neves

José Corrêa Neves nasceu em 28 de setembro de 1927, na zona rural de Itirapuã, no interior de São Paulo. Filho de Thomás Corrêa Neves e Maria Patrocínia de Carvalho, cresceu em uma família humilde, ajudando os pais e os irmãos no trabalho da lavoura de café. Ainda adolescente, sua vida tomaria um rumo completamente diferente.

Aos 14 anos, deixou Itirapuã e seguiu sozinho para São Paulo. Segundo relatos de sua família, havia ficado órfão recentemente e decidiu deixar a cidade depois de sofrer agressões de um tio. Chegou à capital de trem e passou por dificuldades, chegando a dormir na rua. Começou a trabalhar em um bar na Avenida São João, onde morava em um pequeno quarto anexo e recebia alimentação como parte do pagamento. Foi nesse período que sua trajetória começou a mudar.

O encontro que mudou sua vida

Enquanto trabalhava em São Paulo, Corrêa Neves conheceu o jornalista Castro Neves, que dirigia o jornal A Noite. Apesar do sobrenome em comum, os dois não eram parentes. Castro percebeu no jovem uma inteligência incomum e tornou-se uma espécie de mentor, apresentando-lhe o mundo do jornalismo, da literatura e da política.

Corrêa passou a ler intensamente. Entre suas leituras estavam obras de Machado de Assis e os sermões do Padre Antônio Vieira. Mais do que simplesmente ler, procurava compreender os autores dentro do contexto de seu tempo. A convivência com Castro Neves abriu também as portas para a profissão que marcaria o restante de sua vida.

Em junho de 1951, entrou pela primeira vez em uma redação de jornal, pelas mãos de seu mentor. Passou por A Noite, O Dia e A Platéia, além dos Diários Associados. Também teve passagem pela TV Record, segundo relatos publicados posteriormente pelo Comércio da Franca.

Na Última Hora

Foi, porém, na Última Hora que Corrêa Neves ganhou projeção nacional.

Em São Paulo, aproximou-se do grupo de jornalistas liderado por Samuel Wainer, que trabalhava na criação do novo jornal. Corrêa participou da formação da equipe e permaneceu no veículo por cerca de dez anos, destacando-se como repórter político.

A experiência o colocou em contato direto com alguns dos principais acontecimentos e personagens da política brasileira. Paralelamente ao jornalismo, passou a atuar também em campanhas políticas e a construir relações que seriam importantes para a etapa seguinte de sua trajetória.

Da redação para a política

Na década de 1950, Corrêa Neves aproximou-se de William Salem, então prefeito de São Paulo. Em 1955, chegou a ocupar a chefia de gabinete do prefeito. Posteriormente, passou a atuar como repórter setorista na Assembleia Legislativa de São Paulo, onde chamou a atenção de Adhemar de Barros.

A aproximação com Adhemar se intensificou durante a campanha presidencial de 1960. Corrêa acompanhou o político em sua tentativa de chegar à Presidência da República. Dois anos depois, Adhemar de Barros foi eleito governador de São Paulo e convidou Corrêa Neves para assumir a Secretaria de Imprensa do governo.

A nova função colocou o jornalista em uma posição estratégica. E ele decidiu utilizá-la também para defender os interesses de Franca.

O “deputado sem cadeira”

Mesmo trabalhando no governo estadual, Corrêa Neves manteve uma forte atuação em favor de Franca. Utilizando sua proximidade com o governo paulista, passou a interceder pela cidade em busca de obras, investimentos e novas instituições.

Entre suas principais conquistas esteve a instalação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Franca, posteriormente incorporada à Unesp. Também participou, ao lado de Ibrahim Haddad, do movimento pela criação da Faculdade de Direito de Franca.

Sua atuação em favor da cidade foi tão frequente que acabou recebendo o apelido de “deputado sem cadeira”, uma referência à quantidade de reivindicações de Franca que levava ao governo estadual, mesmo sem ocupar uma cadeira no Legislativo.

O retorno a Franca

Em 1966, Adhemar de Barros teve seu mandato cassado pelo regime militar e deixou o Brasil, passando um período na Europa. Corrêa Neves o acompanhou durante parte desse exílio.

De volta ao país, decidiu retornar definitivamente para Franca. Antes disso, chegou a disputar eleições para deputado estadual e tornou-se suplente da Assembleia Legislativa de São Paulo.

Em 1968, foi eleito vice-prefeito de Franca na chapa encabeçada pelo médico José Lancha Filho. Exerceu o cargo entre 1968 e 1972, período que marcou sua volta definitiva à vida política da cidade.

O Comércio da Franca

Em 1972, Corrêa Neves casou-se com a professora Sônia Machiavelli. No ano seguinte, começou uma nova e decisiva etapa de sua vida.

O jornalista adquiriu o Comércio da Franca, então dirigido por Alfredo Costa. A negociação não foi simples. Corrêa vendeu um apartamento que possuía em São Paulo e uma propriedade no Mato Grosso para viabilizar a compra e inicialmente se associou ao empresário Delcides Essado.

Em março de 1973, assumiu a direção do jornal. Posteriormente, tornou-se o principal controlador do negócio e permaneceu à frente do Comércio da Franca até sua morte.

A experiência acumulada durante quase duas décadas no jornalismo da capital paulista seria fundamental para a transformação do periódico.

A transformação do jornal

Corrêa Neves encontrou um jornal tradicional, mas com estrutura ainda modesta. Sua proposta era transformá-lo em uma empresa jornalística moderna e profissional.

Em pouco tempo, mudou a sede do jornal para a Rua Ouvidor Freire e investiu na modernização do parque gráfico. A aquisição da rotativa Goss Community, importada dos Estados Unidos, permitiu ao Comércio da Franca adotar o sistema de impressão a frio e se colocar entre os jornais mais modernos do interior paulista naquele período.

Também promoveu mudanças na redação. Trouxe profissionais com experiência adquirida em grandes jornais e ampliou as equipes de repórteres, fotógrafos e editores.

Uma de suas principais mudanças editoriais foi aproximar o jornal do cotidiano da cidade. Em vez de concentrar os espaços nobres da edição nas notícias de Brasília e do exterior, passou a dar maior destaque aos acontecimentos de Franca e da região.

A aposta ajudou a transformar o Comércio da Franca em um dos principais veículos de comunicação do interior paulista.

Um jornal como ponto de encontro

Durante os anos em que esteve à frente do Comércio, Corrêa Neves também transformou a sede do jornal em um espaço de encontro da vida pública francana.

Políticos, empresários, artistas, autoridades e personalidades passaram pela redação. Governadores do Estado e até o então presidente Fernando Henrique Cardoso estiveram no jornal em diferentes ocasiões.

Ao mesmo tempo, Corrêa cultivava uma relação intensa com a notícia. Era conhecido pela busca por informações exclusivas e pela preocupação em publicar rapidamente os acontecimentos.

Seu filho, Corrêa Neves Júnior, e funcionários que conviveram com ele por décadas destacaram posteriormente sua firmeza na defesa da independência editorial do jornal e sua disposição para modernizar a empresa.

Família e continuidade

Em 1972, Corrêa Neves e Sônia Machiavelli se casaram. O casal teve dois filhos, José Corrêa Neves Júnior e André Luís Corrêa Neves.

Júnior cresceu dentro do ambiente do jornal e começou a trabalhar profissionalmente no Comércio ainda jovem. Também teve uma passagem pela Folha de S.Paulo, em Ribeirão Preto, antes de retornar definitivamente ao jornal da família. Ao longo dos anos, passou por diferentes funções na redação até assumir responsabilidades cada vez maiores na empresa.

Essa continuidade familiar seria fundamental para a história posterior do grupo.

Os últimos anos

Em 2005, já enfrentando problemas de saúde, Corrêa Neves participou de uma última grande iniciativa empresarial: a aquisição da Rádio Difusora de Franca pela família. A negociação aproximou definitivamente o jornal e a emissora e formou a base do grupo de comunicação que posteriormente seria consolidado sob o nome GCN.

Em março daquele ano, afastou-se da direção do jornal por causa de sua enfermidade.

José Corrêa Neves morreu na noite de 18 de agosto de 2005, no Hospital São Joaquim, em Franca, após sofrer uma crise convulsiva seguida de parada cardíaca. Tinha 77 anos, 10 meses e 20 dias.

Foi velado na Câmara Municipal de Franca, onde centenas de pessoas prestaram as últimas homenagens. Seu corpo foi posteriormente levado para o Crematório da Vila Alpina, em São Paulo, conforme desejo manifestado por ele em vida.

Um legado na comunicação de Franca

José Corrêa Neves deixou uma trajetória que atravessou diferentes mundos. Começou trabalhando na lavoura em Itirapuã, enfrentou dificuldades ainda adolescente em São Paulo, encontrou no jornalismo sua profissão, ganhou projeção nacional como repórter político, atuou ao lado de importantes personagens da política brasileira e voltou para Franca para participar diretamente da vida pública da cidade.

Mas foi no Comércio da Franca que construiu a parte mais duradoura de seu legado.

Durante 32 anos, entre 1973 e 2005, esteve à frente do jornal e promoveu uma profunda transformação editorial, gráfica e empresarial. A modernização da estrutura, a valorização do noticiário local e a busca constante pela informação em primeira mão ajudaram a consolidar o Comércio como uma referência regional.

Sua história também continuou através da família. Após sua morte, Corrêa Neves Júnior assumiu o comando da empresa e deu continuidade ao projeto, incorporando novas tecnologias e plataformas ao grupo de comunicação.

A trajetória de José Corrêa Neves, portanto, não está apenas na história de um jornalista ou de um jornal. Está também na memória de uma cidade que ele ajudou a defender, registrar e comunicar durante mais de três décadas.