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Lúcia Helena

Lúcia Helena

Antes de ser conhecida em todo o Brasil como Lúcia Helena, ela era Izilda Rodrigues Alves, uma jovem francana que descobriu muito cedo o poder da própria voz.

Nascida em Franca, Izilda começou sua trajetória artística ainda no interior. Os registros consultados mostram que ela passou inicialmente pela imprensa e pelo rádio. Uma reportagem publicada pela Revista do Rádio em 1947 afirma que, antes de chegar ao Rio de Janeiro, ela trabalhou como cronista em Franca e posteriormente em Rio Claro, onde se tornou locutora da Rádio Club.

Foi justamente em Rio Claro que sua carreira começou a ganhar outra dimensão.

Segundo entrevista concedida pela própria Lúcia Helena à Revista do Rádio em 1949, ela trabalhava no Jornal de Rio Claro, onde escrevia para a seção feminina “Mulher”. O sucesso de suas crônicas chamou a atenção do diretor da emissora local, que a convidou para ler seus textos diariamente no rádio. Foi assim que Izilda entrou definitivamente para o mundo da radiofonia.

Naquele momento, porém, havia uma barreira que hoje pode parecer surpreendente: a resistência da própria família à exposição do nome de Izilda pelos receptores de rádio.

Foi por isso que ela adotou o nome artístico Lúcia Helena.

A escolha do pseudônimo aparece registrada em sua entrevista de 1949, na qual explicou que não queria que o verdadeiro nome da família fosse espalhado pelos aparelhos de rádio.

Como ela chegou ao Rio de Janeiro?

Em Rio Claro, Lúcia Helena também trabalhou ao lado do radialista Raul Brunini. A Revista do Rádio registra que os dois chegaram a idealizar o programa “Bazar de Novidades”, que alcançou sucesso local. Depois dessa experiência, Lúcia decidiu tentar a carreira no Rio de Janeiro.

A chegada à então capital federal abriu o caminho para uma trajetória extraordinária.

Ela passou pela Rádio Tupi e, posteriormente, chegou à Rádio Nacional, a poderosa PRE-8, emissora que durante as décadas de 1940 e 1950 alcançaria enorme influência sobre a cultura popular brasileira.

As fontes divergem sobre o ano exato de sua entrada definitiva na Nacional. Uma entrevista concedida pela própria Lúcia Helena em 1949 registra 1943 como o ano de ingresso na E-8. Outras fontes biográficas apontam 1941 ou 1942. Para uma biografia historicamente responsável, o mais seguro é registrar que sua consolidação na Rádio Nacional ocorreu no início dos anos 1940, sem transformar o ano divergente em uma certeza.

Na Nacional, ela começou também desempenhando funções administrativas, inclusive como secretária de Victor Costa, diretor da emissora. Pouco depois, consolidou-se como locutora.

E sua voz se tornou uma das marcas da programação da PRE-8.

Por que sua voz ficou famosa?

Foi no programa de Francisco Alves, um dos maiores ídolos da música brasileira, que Lúcia Helena alcançou uma das maiores projeções de sua carreira.

O programa “Quando os Ponteiros se Encontram” era levado ao ar aos domingos, ao meio-dia, dentro do grande Programa Luís Vassalo. A abertura, feita pela voz de Lúcia Helena, tornou-se uma das passagens mais lembradas da história do rádio brasileiro. Pesquisas sobre a Rádio Nacional confirmam que o programa de Francisco Alves começava com a apresentação de Lúcia.

A relação profissional com Francisco Alves foi tão marcante que, décadas depois, sua voz ainda era lembrada como parte inseparável daquela atração.

Um dos recortes enviados traz um detalhe especialmente importante: segundo a própria Lúcia Helena, ela e Francisco Alves chegaram a trabalhar juntos por cerca de dez anos no programa.

Depois da morte de Francisco Alves, em 1952, a atração passou a contar com Orlando Silva, mas a voz de Lúcia Helena permaneceu associada à abertura do programa durante anos. O recorte de jornal registra que ela continuou fazendo a famosa locução até meados da década de 1960.

Quais funções Lúcia Helena exerceu?

Seria um erro, porém, reduzir Lúcia Helena à mulher que anunciava Francisco Alves.

Sua atuação na Rádio Nacional foi muito mais ampla.

Ela trabalhou como locutora, redatora, narradora e produtora, participando de diferentes formatos da emissora. Fontes sobre a Rádio Nacional registram sua participação em programas como “Boa Tarde, Madame”, “A Vida que a Gente Leva” e “Sala de Visitas”.

O programa “Sala de Visitas”, em particular, alcançou grande repercussão. Uma publicação da década de 1950 registra que Lúcia Helena voltou a apresentá-lo semanalmente e que a atração havia se consolidado entre os programas de maior audiência daquele horário.

A atração também reunia importantes nomes do elenco da Rádio Nacional. Em seus recortes, Lúcia Helena relembra participações de artistas como Emilinha Borba e Aracy de Almeida, além de números musicais e apresentações especiais.

Qual foi seu papel durante a guerra?

Sua atuação não se limitava sequer ao entretenimento.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Lúcia Helena participou de transmissões destinadas ao exterior e de programas relacionados à Força Expedicionária Brasileira (FEB) e à Legião Brasileira de Assistência (LBA), lendo mensagens destinadas aos brasileiros que estavam no front. Essa informação é confirmada por referências históricas sobre a Rádio Nacional e também pelo livro Almanaque da Rádio Nacional, de Ronaldo Conde Aguiar.

Isso mostra a dimensão que sua voz alcançou: ela não falava apenas para os ouvintes de uma cidade ou de uma região. Sua voz fazia parte de uma emissora que alcançava diferentes regiões do Brasil e também transmitia para o exterior.

Como foi ser mulher no rádio?

A trajetória de Lúcia Helena também precisa ser compreendida dentro do contexto social em que aconteceu.

Ela começou a trabalhar no rádio em uma época em que a presença feminina nos meios de comunicação ainda enfrentava muitas limitações.

O jornal francano que noticiou sua morte, em outubro de 1995, destaca justamente esse aspecto. O texto lembra que Lúcia Helena enfrentou uma época em que as mulheres encontravam grandes barreiras para desenvolver carreiras artísticas e profissionais.

O jornal afirma ainda que ela “abriu escola para outras mulheres”, citando radialistas que vieram depois dela.

Essa é uma dimensão importante de seu legado: Lúcia Helena não foi apenas uma profissional bem-sucedida. Ela ajudou a demonstrar que uma mulher poderia ocupar um espaço de grande visibilidade em uma das principais emissoras do país.

Quando veio o reconhecimento nacional?

A importância de Lúcia Helena também aparece nos registros da imprensa especializada.

Em 1951, ela foi escolhida como uma das melhores locutoras do rádio brasileiro no concurso “Melhores de 51”, promovido pela Revista do Rádio. O resultado publicado na época colocou Lúcia Helena em primeiro lugar entre as locutoras, seguida por Silvana.

Uma publicação contemporânea de 1949 já descrevia sua voz como uma das de maior destaque da Rádio Nacional e ressaltava sua capacidade de interpretar textos, apresentar novelas e dar personalidade às locuções.

O reconhecimento também aparece em fontes posteriores sobre a história do rádio, que a identificam como uma das grandes vozes femininas da Rádio Nacional.

Quem era a mulher por trás da voz?

Apesar da fama, os relatos sobre sua vida pessoal mostram uma mulher extremamente reservada.

O recorte publicado pelo Diário da Franca em 4 de outubro de 1995, poucos dias depois de sua morte, descreve Lúcia Helena como uma pessoa discreta, polida e reservada, que não costumava misturar a vida particular com a profissão.

Depois de se aposentar, permaneceu durante muitos anos no Rio de Janeiro, inclusive em Copacabana. Segundo outro recorte enviado, já afastada das atividades artísticas, ela passou a colaborar com sociólogos que pesquisavam e registravam a história do rádio antigo.

Era, de certa forma, uma testemunha viva da própria história que ajudara a construir.

Quando Lúcia Helena voltou a Franca?

Mesmo depois de alcançar fama nacional, Lúcia Helena manteve ligação com sua cidade natal.

O jornal que noticiou sua morte registra que ela costumava voltar a Franca para passar férias e que, com o passar dos anos, especialmente após a perda de pessoas próximas, acabou retornando para a cidade.

Foi em Franca que morreu, em 28 de setembro de 1995, segundo as fontes locais e biográficas consideradas mais consistentes. O registro municipal confirma que existe hoje uma Rua Izilda Rodrigues Alves, nome civil da radialista, no Residencial Itapuã. A denominação foi estabelecida pela Lei Municipal nº 6.110, de 17 de fevereiro de 2004.

Assim, a cidade que a viu nascer preservou seu nome não pelo pseudônimo que a tornou famosa, mas pelo nome de nascimento: Izilda Rodrigues Alves.