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Vicente Leporace

Vicente Leporace

Antes de conquistar milhões de ouvintes com sua voz firme, seus comentários contundentes e o famoso O Trabuco, Vicente Fiderice Leporace foi um jovem que encontrou em Franca o primeiro palco para uma carreira que atravessaria o rádio, a televisão, o cinema e o jornalismo brasileiro.

Nascido em 26 de janeiro de 1912, em São Tomás de Aquino, no sul de Minas Gerais, Vicente era filho de imigrantes italianos, Domenico Guerino Leporace e Marianna Gramani. Ainda criança, mudou-se com a família para Franca, onde cresceu, estudou e começou a construir os primeiros capítulos de uma trajetória que, anos mais tarde, o levaria aos grandes centros da comunicação brasileira.

Foi em Franca que nasceu sua ligação com o rádio.

Como começaram os primeiros passos em Franca?

Na década de 1940, Vicente Leporace chegou à Rádio Clube Hertz de Franca, uma das emissoras pioneiras da radiodifusão no interior paulista. O convite teria partido de seu amigo Blota Júnior, que mais tarde também alcançaria grande projeção na televisão brasileira.

E Leporace começou por baixo. Antes de conquistar o microfone, trabalhou como varredor de estúdio. Mas o jovem tinha uma disposição incomum para aprender e, em pouco tempo, passou a desempenhar diferentes funções dentro da emissora: foi radioator, discotecário, programador e locutor.

A experiência na Rádio Hertz foi fundamental para sua formação. Naquele período, o rádio ainda era uma atividade relativamente nova no Brasil, e muitos profissionais aprendiam o ofício diretamente nos estúdios. Leporace aproveitou essa oportunidade para conhecer praticamente todas as etapas de uma produção radiofônica.

A participação na Revolução de 1932

Foi também nesse período de sua juventude que participou da Revolução Constitucionalista de 1932, em São Paulo. Leporace tinha então 20 anos.

A passagem pela Rádio Hertz seria decisiva. Franca não foi apenas a cidade onde viveu parte da infância e juventude: foi onde ele descobriu a profissão que mudaria sua vida.

De Franca para Santos

Depois dos primeiros anos em Franca, Leporace decidiu buscar novos horizontes.

Ao lado do amigo e também artista Xisto Guzzi, seguiu para Santos, cidade que vivia um período de intensa movimentação cultural e artística. A presença de cassinos, cafés e casas de espetáculo fazia do litoral paulista um ambiente atraente para quem buscava oportunidades no mundo artístico.

Em Santos, trabalhou na Rádio Atlântica e também participou de teatro. Uma das montagens foi dirigida por Armando Rosas, ligada ao chamado Teatro de Antena da emissora.

A experiência ampliou seus horizontes e preparou o caminho para a etapa seguinte: a capital paulista.

Quando Leporace chegou a São Paulo?

Em 1937, Leporace chegou a São Paulo e passou a atuar na Sociedade Bandeirante de Rádio Difusão, a PRH-9, emissora que se tornaria a Rádio Bandeirantes. A estação iniciou suas transmissões em 6 de maio daquele ano.

Na emissora, Leporace se destacou especialmente pelo conhecimento musical e chegou a exercer a função de discotecário-chefe.

Mas foi sua atuação junto a jovens músicos que deixaria uma marca curiosa na história da música popular brasileira.

Como surgiu o nome Demônios da Garoa?

Em 1943, o conjunto que então se apresentava como Grupo do Luar participou de um programa de calouros da Rádio Bandeirantes. Leporace se tornou um entusiasta do grupo e promoveu um concurso entre os ouvintes para escolher um novo nome.

A sugestão vencedora foi Demônios da Garoa.

O nome atravessou décadas e acabou se tornando um dos mais conhecidos da música popular brasileira. A relação de Leporace com o grupo é, portanto, mais uma das histórias pouco lembradas da trajetória do radialista.

Leporace também atuou no cinema

Leporace nunca ficou limitado a uma única atividade.

Além do rádio, também se aventurou pelo cinema, especialmente a partir do final da década de 1940. Sua estreia nas telas ocorreu com Luar do Sertão, e depois vieram diversos outros trabalhos.

Entre eles estão A Vida é uma Gargalhada, Sai da Frente, Sinhá Moça, Uma Pulga na Balança, Nadando em Dinheiro, Na Senda do Crime, É Proibido Beijar e Carnaval em Lá Maior.

Alguns desses filmes fazem parte da história do cinema brasileiro e incluem nomes importantes da época. Leporace também dividiu as telas com Mazzaropi, ampliando ainda mais sua presença na cultura popular brasileira.

Apesar da experiência no cinema, seria no rádio que encontraria sua maior vocação.

O Jornal da Manhã marcou sua carreira

No início dos anos 1950, Leporace passou pela Rádio Record de São Paulo.

Em 1951, lançou o Jornal da Manhã, um informativo que ele próprio redigia e apresentava diariamente. O programa permaneceu no ar por aproximadamente onze anos e ajudou a consolidar o radialista no jornalismo.

A experiência seria importante porque mostraria a Leporace o caminho que mais tarde o consagraria: a combinação entre informação, opinião e personalidade.

Ele não queria simplesmente ler as notícias.

Queria comentá-las.

Como a televisão ganhou a voz de Leporace?

Enquanto construía sua trajetória no rádio, Leporace também se tornou conhecido na televisão.

Em 1955, passou a apresentar, ao lado de Clarice Amaral, a Grande Gincana Kibon, na TV Record.

O programa infantil permaneceu durante 16 anos no ar, tornando-se uma atração de grande popularidade. A atração revelou e recebeu diversos artistas e tinha forte participação das crianças.

Leporace também participou de outros projetos televisivos. Na TV Excelsior, interpretou o personagem Carlo na novela Redenção, entre 1966 e 1968. Mais tarde, já na TV Bandeirantes, integrou a equipe do telejornal Titulares da Notícia.

Assim, o homem que havia começado varrendo um estúdio de rádio em Franca havia se transformado em uma personalidade reconhecida em diferentes meios de comunicação.

Quando nasceu O Trabuco?

Foi na Rádio Bandeirantes que Vicente Leporace encontraria seu maior sucesso.

Em 1962, estreou O Trabuco, programa que se tornaria uma referência do radiojornalismo brasileiro e permaneceria no ar até a morte do radialista, em 1978.

O formato era simples, mas extremamente poderoso.

Leporace lia as principais notícias publicadas nos jornais e, em seguida, fazia seus próprios comentários.

Eram comentários irônicos, críticos, contundentes e muitas vezes direcionados aos políticos e às autoridades.

Por que O Trabuco fez tanto sucesso?

Sua personalidade fazia toda a diferença.

A voz que saía pelo rádio não era a de alguém que apenas reproduzia a notícia. Era a de um comunicador que interpretava os acontecimentos e dizia claramente o que pensava sobre eles.

O resultado foi um programa que conquistou enorme audiência e transformou Leporace em um dos mais importantes formadores de opinião do rádio brasileiro. Um estudo acadêmico sobre o programa o define como um marco do radiojornalismo paulista das décadas de 1960 e 1970.

Uma voz incômoda durante a ditadura

O sucesso de O Trabuco aconteceu em um dos períodos mais conturbados da história política brasileira.

Durante o regime militar, Leporace continuou fazendo críticas e questionando autoridades.

Seu programa chegou a provocar processos e problemas com órgãos de censura. Uma reportagem publicada pela Revista do Rádio em 1969 registra que somente no ano anterior haviam sido movidos 28 processos contra o radialista por declarações feitas em O Trabuco. O mesmo texto relata que Leporace chegou a ser detido diversas vezes.

Como Leporace enfrentava a censura?

A censura, porém, não eliminou sua disposição para comentar os acontecimentos.

Leporace fazia questão de assumir a responsabilidade pelo que dizia. Seu famoso aviso antes dos comentários reforçava justamente essa característica: ele deixava claro que aquelas opiniões eram suas.

A imagem do radialista com seu “trabuco” tornou-se uma das marcas mais fortes da comunicação brasileira daquele período.

O estilo que conquistou o público

Parte do sucesso de Leporace estava justamente na maneira como falava.

Seu texto misturava informação, ironia, crítica e humor. Ele conseguia transformar notícias complexas em comentários compreensíveis para o público.

A própria pesquisa acadêmica sobre O Trabuco destaca o caráter ácido dos comentários e o uso do humor como elemento importante para abordar o comportamento dos políticos e os acontecimentos da época.

Sua voz passou a fazer parte da rotina de milhares de brasileiros.

E, em uma época em que o rádio era um dos principais meios de comunicação do país, isso significava uma influência enorme.

Os últimos anos de Vicente Leporace

Leporace continuou à frente de O Trabuco até os últimos dias de sua vida.

A última edição apresentada por ele foi ao ar em 15 de abril de 1978. No dia seguinte, 16 de abril, Vicente Leporace morreu em São Paulo, aos 66 anos, vítima de edema pulmonar.

Seu corpo foi velado no Teatro Bandeirantes.

Com sua morte, O Trabuco também chegou ao fim. A voz que durante 16 anos havia comentado diariamente as notícias do país deixou definitivamente os microfones.

Lolila e Ayrton Rodrigues em pé, com seus convidados no programa "Almoço com as Estrelas", pela Rede Tupi, na década de 70. Sentados, da esquerda para a direita: Jane (da dupla Jane & Herondy), Vicente Leporace, a atriz Nathalia Timberg, o empresário Genival Mello e o cantor Nelson Ned. Foto: Memórias Paulistanas (Facebook)