O Banquete da República em Franca
O Filé à JK é um daqueles pratos que ajudam a contar a história de Franca sem precisar de datas ou documentos, ele aparece primeiro na memória das pessoas, depois nos restaurantes, e só então nos livros.
Trata-se de uma criação típica da cidade, associada ao ex-presidente Juscelino Kubitschek e envolta em uma lenda que atravessa gerações. A versão mais conhecida diz que o prato teria surgido a partir da passagem de JK por Minas Gerais, no Grande Hotel de Araxá. Ali, entre encontros políticos e recepções, teria nascido, ou sido preparado pela primeira vez, um filé mignon diferente, recheado e servido com acompanhamentos generosos. Um cozinheiro que passou por esse ambiente teria trazido a receita para Franca, onde ela ganhou identidade própria e virou tradição local.
Com o tempo, o prato foi sendo moldado pelo gosto francano até chegar ao formato que hoje é reconhecido: filé mignon à milanesa, recheado com presunto e queijo, coberto por molho e acompanhado de arroz, batata frita e banana à milanesa. É uma combinação abundante, pensada mais para mesa compartilhada do que para uma refeição individual, quase um ritual de encontro.
O Filé à JK deixou de ser apenas uma receita e passou a ser experiência, um prato servido em grandes porções, cercado por uma atmosfera antiga, de restaurante tradicional, onde o tempo parece desacelerar. Ao longo dos anos, ele se tornou o principal pedido da casa e uma espécie de cartão de visita da culinária local.
Mas nem tudo é consenso nessa história. Assim como acontece com muitos pratos tradicionais brasileiros, a origem exata do Filé à JK não é comprovada. Há quem diga que foi realmente inspirado por JK, há quem veja apenas uma homenagem ao presidente. O que se sabe com mais certeza é que ele se consolidou em Franca a partir da segunda metade do século XX e nunca mais saiu dos cardápios da cidade.
Em 2013, o prato ganhou um reconhecimento oficial importante: foi tombado como patrimônio cultural imaterial do município de Franca, reforçando que sua importância vai além do sabor. Ele passou a ser entendido também como parte da identidade cultural da cidade, algo que pertence à memória coletiva, às mesas de família e às histórias contadas em torno de um prato compartilhado.
Hoje, falar do Filé à JK é falar de uma Franca que se construiu entre o interior e o movimento das estradas, entre a simplicidade e a vontade de se afirmar como cidade moderna. É um prato que nasceu de uma lenda, mas se sustentou na prática: na repetição dos pedidos, nas mesas cheias e na permanência de uma tradição que continua sendo servida, prato após prato, geração após geração.


