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O Segredo das Areias Cariocas

O Segredo das Areias Cariocas

27 de junho de 20263 min de leitura

O Biscoito Globo, tão associado às praias do Rio de Janeiro, carrega em sua origem uma história que começa longe do mar e das areias cariocas, começa no interior paulista, e passa por Franca, em uma narrativa marcada por imigração, recomeços e caminhos familiares atravessados pela vida urbana do século XX.

A história tem início com o casal de imigrantes espanhóis Encarnação Fernandes e Antônio Ponse, que se casou em 1935, em Franca. Como muitas famílias de imigrantes da época, eles buscavam estabilidade em um Brasil que ainda se reorganizava economicamente. Tiveram quatro filhos, três homens e uma mulher, e construíram ali, inicialmente, sua vida familiar.

Em determinado momento, Antônio, descrito como um homem bastante ciumento e de temperamento rígido, decidiu que a família deveria deixar Franca e recomeçar em São Paulo. A mudança representava uma tentativa de controle e reestruturação da vida doméstica. Ele imaginava um cenário em que Encarnação permaneceria dedicada exclusivamente à casa e aos filhos.

A realidade, no entanto, seguiu outro caminho. Com o passar do tempo, Encarnação começou a trabalhar fora, ganhou autonomia, conheceu outra pessoa e acabou rompendo com a estrutura familiar. A separação abalou profundamente Antônio, que entrou em depressão e se afastou da vida ativa.

Diante desse contexto difícil, um dos filhos, Milton, assumiu um papel central na reorganização da família. Ele procurou apoio em um primo que era proprietário da Padaria Record, no bairro do Ipiranga, em São Paulo. Ali, Milton e seus irmãos começaram a trabalhar, aprendendo o ofício da panificação e se inserindo no cotidiano do pequeno comércio alimentar.

Esse contato com a produção de pães e biscoitos seria decisivo para o futuro da família. Anos depois, já na década de 1950, Milton viajou ao Rio de Janeiro para participar de um Congresso Eucarístico. Na ocasião, levou consigo biscoitos de polvilho, que acabaram chamando atenção e sendo muito bem recebidos pelo público. O produto simples, leve e crocante encontrou um mercado inesperado naquele ambiente de grande circulação.

O sucesso abriu novas possibilidades. Mais tarde, a família se mudou para Botafogo, no Rio de Janeiro, e passou a produzir os biscoitos em maior escala. Para isso, arrendaram o forno da Padaria Globo, um detalhe que acabaria marcando definitivamente a identidade do produto. Foi desse vínculo com a padaria que surgiu o nome “Biscoito Globo”, que rapidamente se fixaria no imaginário carioca.

Com o tempo, o biscoito deixou de ser apenas um produto artesanal para se tornar um símbolo das praias do Rio de Janeiro, vendido em carrinhos, consumido à beira-mar e associado ao cotidiano de moradores e turistas. Sua simplicidade contrastava com a força cultural que alcançou: um alimento leve, barato e presente em momentos de lazer e convivência.

Em 2012, o Biscoito Globo foi reconhecido como patrimônio cultural e imaterial da cidade do Rio de Janeiro, consolidando oficialmente seu lugar na identidade carioca. Pouco se lembra, porém, de que essa história atravessa também o interior paulista, e que parte de sua origem passa por Franca, onde a trajetória da família começou a ser desenhada.

Assim, o Biscoito Globo não é apenas uma iguaria popular das praias. Ele é também resultado de deslocamentos humanos, rupturas familiares e reinvenções do trabalho. E nessa linha do tempo, Franca aparece como um dos pontos iniciais de uma história que, sem perder suas raízes, acabou ganhando o sabor e o ritmo do litoral carioca.

Ivan Rubens

Ivan Rubens

Ivan Rubens é carioca, está em Franca-SP desde o início dos anos 90, iniciou sua carreira aos 18 anos no ramo de produção e organização de eventos culturais