Capitão Anselmo

Anselmo Ferreira de Barcellos foi fazendeiro, militar e uma das mais controversas figuras da história de Franca no século XIX. Capitão da Guarda Nacional e integrante da elite rural da época, destacou-se como liderança política em um período marcado por intensa instabilidade no Brasil.
A década de 1830 foi uma das mais turbulentas da história brasileira. Após a abdicação de Dom Pedro I, em 1831, o país passou a ser governado por regentes, inaugurando o chamado Período Regencial. A fragilidade do governo central favoreceu o surgimento de revoltas e disputas políticas em diversas regiões do Império.
Em Franca, os conflitos locais envolveram antigas famílias influentes, disputas eleitorais e rivalidades pessoais. Em 1838, após a derrota de seu grupo político nas eleições municipais e alegando fraudes no processo eleitoral, Capitão Anselmo liderou um levante armado que ficou conhecido como "Anselmada".
À frente de seus seguidores, Anselmo tomou a então Vila Franca do Imperador. O movimento provocou a fuga de autoridades, instaurou um clima de medo entre os moradores e desencadeou episódios de violência. Entre os acontecimentos mais graves esteve o assassinato do Juiz de Paz Manoel Rodrigues Pombo, fato que marcou profundamente a memória local.
A rebelião foi reprimida somente após a chegada de forças enviadas pelo governo provincial. Derrotado, Anselmo deixou a região e permaneceu foragido. Anos mais tarde, estabeleceu-se na região que daria origem ao município de Igarapava.
Apesar da violência associada ao movimento, a Anselmada teve consequências importantes para a organização administrativa de Franca. Logo após a revolta, pela Lei Provincial nº 7, de 14 de março de 1839, Franca foi elevada à condição de sede de Comarca, passando a contar com um Juiz de Direito permanente, medida que fortaleceu a presença do Estado na região.
Até hoje, a figura de Capitão Anselmo desperta debates entre historiadores. Para alguns, representou a resistência de grupos políticos tradicionais diante das mudanças ocorridas no período. Para outros, agiu principalmente em defesa de interesses particulares e de seu grupo político.
Essa complexidade talvez explique por que sua imagem permanece representada no brasão e na bandeira de Franca. Não como herói ou vilão, mas como símbolo de um dos momentos mais intensos e decisivos da formação política da cidade.
Mais de 180 anos depois, a Anselmada continua sendo um dos episódios mais dramáticos e fascinantes da história francana, lembrando que a construção de uma cidade também é feita de conflitos, disputas e transformações.



