Janete Clair

Poucos nomes tiveram tanta influência na história da televisão brasileira quanto Janete Clair. Autora de novelas que mobilizaram milhões de espectadores, ela revolucionou a dramaturgia nacional e se tornou conhecida como a "Maga das Oito", em referência ao horário nobre da televisão. O que pouca gente sabe é que os primeiros passos dessa trajetória de sucesso aconteceram em Franca, onde viveu parte da infância e da adolescência e iniciou sua vida artística na Rádio Hertz.
Infância e origem
Janete Clair nasceu em 25 de abril de 1925, na cidade de Conquista, em Minas Gerais. Filha do comerciante libanês Salim Emmer e da costureira Carolina Stocco, recebeu o nome de Jenete Stocco Emmer, grafado com "e" por um erro do escrivão no registro de nascimento. Anos mais tarde, adotaria a forma "Janete", que a acompanharia por toda a carreira.
Ainda criança, mudou-se com a família para Franca, cidade que teria papel fundamental em sua formação artística.

A passagem por Franca
Foi em Franca que Janete Clair teve seu primeiro contato com o universo da comunicação.
Na então Rádio Clube Hertz (PRB-5), uma das emissoras mais tradicionais do interior paulista e uma das pioneiras do Brasil, a jovem participava da programação interpretando canções em francês e árabe.
Sua facilidade para cantar em diferentes idiomas chamava a atenção dos ouvintes e demonstrava um talento que, anos depois, conquistaria todo o país.
Pesquisadores apontam que a convivência com o rádio e também com o cinema durante o período em que viveu em Franca foi decisiva para despertar seu interesse pelas narrativas seriadas.
Ela frequentava as sessões de cinema da cidade e acompanhava os filmes exibidos em capítulos semanais, experiência que mais tarde influenciaria sua maneira de construir histórias cheias de suspense e ganchos para prender o público.
Aos 14 anos, precisou interromper temporariamente as apresentações artísticas para trabalhar como datilógrafa e ajudar no sustento da família. Mesmo assim, a experiência adquirida na Rádio Hertz permaneceu como o ponto de partida de sua trajetória profissional.
O início da carreira no rádio
Depois de deixar Franca, Janete mudou-se para São Paulo. Trabalhou como datilógrafa e fez estágio em um laboratório de análises clínicas, onde estudou bacteriologia. Entretanto, o desejo de seguir carreira artística falou mais alto.
Em 1943, foi aprovada em um teste para atuar como locutora e radioatriz na Rádio Tupi. Foi nesse período que adotou o nome artístico Janete Clair. O sobrenome "Clair" foi sugerido pelo radialista Octavio Gabus Mendes, inspirado na composição Clair de Lune, de Claude Debussy.
Na emissora, conheceu o dramaturgo Dias Gomes, com quem se casou e teve filhos. A parceria entre os dois se tornaria uma das mais importantes da cultura brasileira.
Das radionovelas às telenovelas
Incentivada por Dias Gomes, Janete começou a escrever radionovelas na década de 1950. Seu primeiro grande sucesso foi Perdão, Meu Filho, transmitida pela Rádio Nacional em 1956.
Ao longo dos anos, escreveu mais de trinta radionovelas, consolidando-se como uma das principais autoras do gênero no Brasil.
Na década de 1960, migrou para a televisão, escrevendo novelas para a TV Tupi e outras emissoras. Em 1967, foi convidada para colaborar com a TV Globo, onde mudaria definitivamente a história da teledramaturgia brasileira.
A "Maga das Oito"
Na Globo, Janete Clair escreveu algumas das novelas mais marcantes da televisão brasileira.
Entre seus maiores sucessos estão:
Véu de Noiva (1969)
Irmãos Coragem (1970)
Selva de Pedra (1972)
Fogo Sobre Terra (1974)
Pecado Capital (1975)
O Astro (1977)
Pai Herói (1979)
Coração Alado (1980)
Sétimo Sentido (1982)
Eu Prometo (1983)
Suas obras bateram recordes históricos de audiência e ajudaram a consolidar a telenovela como um dos principais produtos da televisão brasileira. Por sua capacidade de prender o público capítulo após capítulo, recebeu apelidos como "Maga das Oito", "Dama das Oito" e "Usineira de Sonhos", este último atribuído pelo poeta Carlos Drummond de Andrade.
Legado
Janete Clair faleceu em 16 de novembro de 1983, aos 58 anos, enquanto escrevia a novela Eu Prometo. Sua morte interrompeu uma carreira extraordinária, mas sua influência permanece viva.
Ela é considerada por críticos, pesquisadores e profissionais da televisão uma das maiores autoras da história da dramaturgia brasileira, responsável por estabelecer um modelo narrativo que influenciou gerações de roteiristas.
Embora tenha conquistado fama nacional, Franca ocupa um lugar especial em sua trajetória. Foi na cidade, diante dos microfones da Rádio Hertz, que a menina nascida em Conquista descobriu o prazer de se comunicar com o público e deu os primeiros passos rumo a uma carreira que transformaria a televisão brasileira.



